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TEXTO 75
Em cada coração, uma caverna...
Homem ou mulher, um dia, o ser engravida,
E renasce a luz de Maria,
E o Anjo de novo anuncia.
Na pobreza e no abandono,
O Mistério se cumpre em cada um
Que se descobre longe da cruz,
Levada pelo mesmo sangue Jesus.
E a Rainha olha por todos,
E seu manto azul é escudo da Terra,
Protege e perdoa mesmo quem erra.
Mãe, mater, Matéria divina, que vibra
E esmaga serpentes e dragões,
E resgata o peregrino
De um deserto de aflições
E há de saber um dia,
Livrar-nos de toda miséria.
Salve, Maria!
Salve, Rainha!

Texto O Doce Mistério de Maria de Fauzi Arap
Extraído do disco Cânticos, Preces e Súplicas
à Senhora dos Jardins do Céu - 2000


TEXTO 76

Ó garrafada das ervas maceradas
Do breu das brenhas
Se adonai de mim
E do meu peito lacerado.
Ó senhora dos remédios
Ó doce dona
Ó chá
Ó ungüento
Ó destilado
Ó camomila
Ó belladonna
Ó phármakon
Respingai grossas gotas
de vossos venenos
Ó doce dona
Ó camomila
Ó belladonna
Serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
Ó senhora dos sem remédios
Domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
Que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
Se desprendem dos trapézios
E, tontas, buscam o abraço fraterno
E solidário dos espaços vácuos.
Ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
Adonai-vos do peito dilacerado e do lenho oco que ocupo.

Texto Feitio de Oração de Wally Salomão
Extraído do disco Cânticos, Preces e Súplicas
à Senhora dos Jardins do Céu - 2000


TEXTO 77
Nossa Senhora Mãe de Jesus,
Nossa Senhora de todos nós,
Roga por tudo, que tudo é teu.
Por cada coisa, por cada ser
Pelos que cantam, pelos que choram,
Pelos que te esquecem
E pelos que te imploram
Santa Maria, Nossa senhora,
Maria dos tamarineiros
Dos riachos, manguezais,
Dos dendezeiros bonitos
Maria dos canaviais
Maria das fontes limpas
Maria das cachoeiras
Maria das águas claras
Que brincam por sobre os seixos
Maria do Subaé
De águas tristes pesadas
Maria dos barcos, canoas
Maria dos pescadores
De velas cheias de vento
Maria das canas doces
Dos alambiques, do mel
Maria das flores e folhas
Das sementes, dos espinhos
Maria de cada casa
E de todos os caminhos
Maria de nossa infância
Maria de toda gente
Maria de todo amor
Maria de cada igreja
De azulejos, alfaias
Redomas e lindos altares
Maria das procissões
Das festas, das romarias
Dos cânticos, da alegria
Maria de cada noite
Maria de todo dia
Das praças, coretos, cinemas
Maria dos meus amores
Dos meus sobrados tristonhos
Dos meus mais doces sonhos
Maria dos seresteiros
Dos cantadores, poetas
Maria dos sinos plangentes
Maria das torres acesas
Das palmeiras solitárias
Das pontes, moringas e rios
Maria de todo sonho
De música e harmonia
Dos pratos e dos pandeiros
Das festas de fevereiro
Maria das chegadas
E também das despedidas
Maria de todas as vidas
Maria de todas as horas
Maria nossa senhora
Mãe do menino Jesus
Rainha de toda luz
Roga por tudo
Que tudo é teu!

Texto Ladainha de Santo Amaro de Mabel Velloso
Extraído do disco Cânticos, Preces e Súplicas
à Senhora dos Jardins do Céu - 2000

TEXTO 78
Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Texto Sou Eu Mesmo o Trocado de Fernando Pessoa
Extraído do disco Maricotinha Ao Vivo - 2002

TEXTO 79
Eu não sabia, tu não sabias
Fazer girar a vida com seu montão de
Estrelas de oceano entrando-nos em ti!
Bela, bela, mais que bela!
Mas como era o nome dela?
Não era Helena, nem Vera
Nem Nara, nem Gabriela
Nem Tereza, nem Maria
Seu nome, seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
Perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
Perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
Mudou de cara e cabelos, mudou de olhos e risos,
Mudou de casa e de tempo
Mas está comigo está
Perdido comigo
Teu nome

Trecho do Poema Sujo de Ferreira Gullar
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002


TEXTO 80
Eu quero ser possuída por você,
Pelo seu corpo,
Pela sua proteção
e pelo seu sangue.
Me ama,
Eu quero que você me ame e
fique eternamente me amando dentro de mim,
com sua carne e o seu amor.
Eternamente, infinitamente dentro de mim,
me envolvendo,
me decifrando,
me consumindo e me revelando.
Como uma tarde dentro do elevador no verão
voltando da praia, e você me abraçou e eu te abracei.
Quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo,
mais sobrava só o desejo e mais eu te
Queria sem palavras e sem pensamentos.
A vida inteira resumida só no desejo da tua boca
dizendo o meu nome, da tua mão conduzindo a minha mão,
Do teu corpo revelando o meu corpo como se o mundo fosse pela primeira vez.
Você, meu ponto de referência nessa cidade !

Texto eu quero ser possuída por você de José Vicente
Extraído do Programa de Espetáculo do show Pássaro da Manhã - 1977
E Disco Maricotinha ao Vivo -2002


TEXTO 81
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
mas era outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as cores que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar

Texto Poema do Menino Jesus de Alberto Caieiro
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002

TEXTO 82
Quando cheguei no Rio de Janeiro em 65,
Foi Copacabana quem me recebeu,
Com seu cheiro de batata frita e gasolina
Suas tardes de raios e trovões inesperados
E as suas noites inesquecíveis,
mágicas, de puro glamour
O Teatro Opinião, onde estreei
Ao lado de João do Vale e Zé Keti,
fica em Copacabana, e também
as boates todas da cidade,
A maioria pelo menos.
E eu cantei em quase todas elas
E eu ficava fascinada com a novidade
A riqueza da noite em Copacabana
Podia se ver na Boate Cangaceiro Elizeth Cardoso,
Nara Leão no Barroco,
Chico Buarque e MPB-4 no Arpege,
Murilinho de Almeida no Girau,
Silvinha Teles e Rosinha de Valença
no Zum-Zum ou no Bartô,
Quer dizer isso é muito para uma menina
Chegando, vinda do interior da Bahia,
Poder ver e participar de tudo isto
E eu cantei em quase todas as casas,
Quase todas as boates eu cantei, de Copacabana
E eu adorava fazer show de boate,
E eu adorava fazer, Porque público de boate
É um pouquinho diferente
Não é um público assim de teatro
ou de uma casa de espetáculo,
É um público mais mole, mais molinho
A gente leva melhor assim,
Porque bebe um pouquinho, namora muito
E esquece um pouco da cantora lá no canto dela
E foi bacana pra mim
Porque eu aprendi tudo,
Aprendi tudo cantando em boate,
Fazendo esses shows em boates,
Aprendi com os grandes músicos
Que trabalhavam nesses espetáculos,
Com os grandes compositores, poetas,
Cantores que faziam esses shows
Eu adorava, eu me lembrando bem disso: de cantar
A sensação mesmo, eu estou aprendendo o meu ofício
A disciplina e o prazer
Olha aqui, se eu não morasse onde moro
Que adoro, amo o lugar onde moro
Era em Copacabana que eu queria Ter ficado
A noite é mágica e Copacabana é inesquecível
Ainda hoje, gosto de passear por ela
A procura da primeira impressão,
Seu perfume único
A procura da minha princesinha do mar,
Com seu colar de pérolas desfeito.

Texto Boites Rio de Maria Bethânia
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002


TEXTO 83
Depois do Rio de Janeiro, São Paulo foi a cidade,
A Segunda cidade grande, importante,
Longe da minha Bahia
E aqui eu vivi noites também inesquecíveis,
Deslumbrantes, cantei em casas espetaculares
Aqui nesta cidade
Além do teatro onde
Fiz Opinião ao lado de João do Vale e Zé Keti
Mas eu fiz as boates, eu fiz a Blow-Up,
Que era uma casa linda,
Fiz o João Sebastião Bar,
Com Vinícius de Moraes e Baden
E fiz a boate, talvez a mais tradicional
De vocês, a Boate Cave,
Eu fiz com o Hermeto Pascoal
Olha aqui que dupla do barulho
E vestida pelo Dener,
O Dener fez um colete de esmeraldas pra eu cantar
Era um paetê vagabundíssimo
Mas nas mãos dele viravam esmeraldas verdadeiras
Mas certamente a impressão e
A coisa mais forte que tem
Da minha chegada em São Paulo
Que foi aqui nesta cidade
Que conheci Chico Buarque de Holanda
Com seus olhos cor de mar
E suas lindas canções
São Paulo tem recebido merecidamente
Canções lindíssimas, amorosas
Lindas declarações de amor
Da música popular brasileira
Certamente a de meu irmão Caetano
É uma das mais belas
Mas foi com uma canção
Do Paulo Vansolini que
Eu cheguei no coração de São Paulo
E o coração de São Paulo bateu junto com o meu

Texto Boites Sampa de Maria Bethânia
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002


TEXTO 84
Eu sei que atrás deste
Universo de aparências
Das diferenças todas
A esperança é preservada
Nas xícaras sujas de ontem
O café de cada manhã é servido
Mas existe uma palavra
Que eu não suporto ouvir
E dela não me conformo
Eu acredito em tudo,
Mas eu quero você agora
Eu te amo pelas tuas faltas,
Pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes
Pelas tuas loucuras todas, minha vida
Eu amo as tuas mãos
Mesmo que por causa delas
Eu não saiba o que fazer das minhas
Amo teu jogo triste
As tuas roupas sujas é aqui
Em casa que eu lavo
Eu amo a tua alegria
Mesmo e fora de si
Eu te amo pela tua essência
Até pelo que você podia ter sido
Se a maré das circunstâncias
Não tivesse te banhado nas águas do equívoco
Eu te amo nas horas infernais
E na vida sem tempo quando sozinha
Eu bordo mais uma toalha de fim de semana
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas
Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
E pelos teus sonhos inúteis
Amo teu sistema de vida e morte
Eu te amo pelo que se repete
E que nunca é igual
Eu te amo pelas tuas entradas,
Saídas e bandeiras
Eu te amo desde os teus pés
Até o que te escapa
Eu te amo de alma para alma
E mais que as palavras
Ainda que seja através delas
Que eu me defenda quando digo que te amo
Mais que o silêncio dos momentos
Difíceis quando o próprio amor vacila

Texto Quando o Amor Vacila Autor Desconhecido
Extraído do Programa de Espetáculo do Drama - Luz da Noite - 1973
E do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002

TEXTO 85
Quem é essa agora que dentro de mim
Me assusta e me atrai
Sorrateira ela sou eu,
Ou alguma sombra
Que me segue como bicho,
Rastejando nos calcanhares
da minha alma
Lá está, lá está, sabe tudo,
Faz tudo, eu sou
Apenas uma ferramenta
Garganta pela qual
Ela chama, chama, chama

Texto Quem é essa agora de Lya Luft
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002

TEXTO 86
Senhores sou um poeta
um multipétalo uivo, um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um instantâneo
Das coisas apanhadas
Em delito de paixão
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho
a poesia é para comer

Trecho do texto A Defesa do Poeta de Natália Corrêa
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002


TEXTO 87
Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos estão vazias

Texto E Depois de uma Tarde de Sophia de Mello Breyner
Extraído do Disco Maricotinha ao Vivo - 2002


TEXTO 88
Felicidade se acha em horinhas de descuido

Texto Barra da Vaca - Tutaméia de João Guimarães Rosa
Extraído do Disco Brasileirinho - 2003

TEXTO 89
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura

Texto de Grande Sertão Veredas
de João Guimarães Rosa
Extraído do Disco Brasileirinho - 2003


TEXTO 90

Quem castiga nem é Deus é os avessos

Texto uma estória de amor- Manuelzão e Miguilim
de João Guimarães Rosa
Extraído do Disco Brasileirinho - 2003

TEXTO 91
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liqüefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...

Trecho do texto Pátria Minha de Vinícius de Moraes
Extraído do Disco Brasileirinho - 2003


TEXTO 92
Oração a São Cosme e São Damião:
Ah, São Cosme e São Damião
Que por amor a Deus e ao próximo
Vos dedicastes a cura do corpo e da alma
De vossos semelhantes
Abençoai todos os médicos e farmacêuticos
Medicai o meu corpo na doença
E fortalecei a minha alma
Contra todo mal
Que vossa inocência e simplicidade
Acompanhem e protejam todas as crianças
Que a alegria da consciência tranqüila
Que sempre vos acompanhou
Repouse também em meu coração
Que a vossa proteção, São Cosme e São Damião
Conservem meu coração simples e sincero
Para que as palavras de Jesus
Também sirvam para mim
Deixai vir a mim os pequeninos
Porque deles é o reino dos céus
Ah, São Cosme e São Damião
Rogai por todos nós

Texto Oração a São Cosme e São Damião de Mabel Velloso
Extraído do Disco Brincar de Rezar de Mabel Velloso - 2004