Decada de 80
Texto
48
Vem por aqui dizem-me alguns
Com olhos doces, estendendo-me os braços
E seguros que seria bom que os ouvisse
Quando me dizem vem e vem por aqui
Eu olhos com olhos laços
E é nos meus olhos ironias e cansaços
Eu cruzo os braços e nunca vou por aí
A minha glória é essa
É criar desumanidade
É não acompanhar ninguém
Que eu vivo com mesmo sem vontade
Com que rasguei o ventre e a minha mãe
Não não vou por aí
Eu só vou por onde me leva
Os meus próprios passos
Se é o que busco saber
Nenhum de vós respondes porque me repetis
Vem e vem por aqui
Eu prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos feito farrapos
Arrastar os pés sangrentos a ir por aí.
Se vim ao mundo foi somente para
Desflorar florestas virgens
E desenhar os meus próprios
Pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada
Como pois sereis vos que me dareis machados
Ferramentas e coragem para
Derrubar os meus obstáculos
Corre nas vossas veias o sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil
Eu amo o longe e a miragem
Eu amo os abismos, as correntes, os desertos
E de tem de estradas, tem de tratados,
Tem de filósofos, tem de sábios
Eu tenho a minha loucura e levanto-a como um facho
A arder na noite escura e eu simples espuma e sangue
Cânticos nos lábios
Deus e o diabo é que guiam e mais ninguém
Todos tiveram pai , todos tiveram mãe
Mas eu que nunca principio nem acabo
Eu nasci do amor que há entre Deus e o diabo
Há que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições
Ninguém me diga vem por aqui
A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se a levantou um
Átomo a mais que se animou
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Mas sei que não vou por aí.
Texto Cântico
Negro de José Régio, Vinícius de Moraes,
Luiz Carlos Lacerda e Clarice Lispector
Extraído do Disco Nossos Momentos - 1982
TEXTO 49
De tudo, ao meu amor serei atento
antes e com tal zelo e sempre e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama,
eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.
Texto Soneto da
Fidelidade de Vinícius de Moraes
Extraído do Disco Nossos Momentos - 1982
TEXTO 50
Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Texto Sou Eu Mesmo
o Trocado de Fernando Pessoa
Extraído do Programa de Espetáculo do show 20 anos
E do Disco Maricotinha Ao Vivo - 2002
TEXTO 51
Há vinte anos eu vivo no palco.
Eu nunca me senti sozinha aqui.
Para comemorar e agradecer
Aqui estou com quem
Nesses vinte anos me comoveu,
Me confortou, me estimulou:
Vocês e os compositores, poetas,
Músicos, cineastas, cenógrafos,
Figurinistas, escritores,
Queridos amigos e mestres da minha vida.
Nada seria possível sem vocês.
Esse show é feito do que nesses anos
Aprendi e passei adiante:
Amor e respeito.
Texto de Maria
Bethânia
Extraído do Programa de Espetáculo do show 20 anos
TEXTO 52
Um encontro de dois
Olho a olho
Cara a cara
E quando estiveres perto
Eu arrancarei teus olhos
E colocarei no lugar dos meus
E tu arrancarás meus olhos
E colocarás no lugar dos teus
Então eu te olharei com teus olhos
E tu me olharás com os meus.
Texto de Moreno
Extraído do Programa de Espetáculo do show 20 anos
e Disco Rosa dos Ventos - 1971
TEXTO
53
Vinte anos de carreira,
Vinte anos de paixão e fé.
Nenhum presente seria mais gratificante
Quer ver a volta da Democracia
Ao nosso país.
Que deus nos dê força
E nos ilumine
E abençoe o meu recomeçar.
Texto de Maria
Bethânia
Extraído do Programa de Espetáculo do show 20 anos