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TEXTO 54
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.
Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet
Extraído do show 25 Anos e contra capa do mesmo disco - 1990


TEXTO 55
Eu quero brincar de gostar de você
Absolver efeitos, defeitos, reflexos
E transformar em suco de tudo cada sensação
Cada pensamento, transar a emoção do imediato coração
Coração revelado ampliados na rua
Quando te vejo: fotogramas do meu coração revelados
Eu te amo rindo apaixonado, corpo capturado
Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Extraído do show 25 Anos - 1990


TEXTO 56

A música ela me transmite hoje sensações como nunca senti antes.
Ela me libera de mim mesma.
Ela me separa de mim mesma
Como se eu me olhasse
Como se eu me percebesse de muito longe
Ao mesmo tempo ela me fortalece
E sempre após uma noite musical
A minha manhã transborda de idéias e pensamentos corajosos.
É como se eu estivesse mergulhada no elemento mais natural
A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa no exílio.

Friedrich Nietzsche
Extraído do VHS Maria Bethânia Ao Vivo - 1995


TEXTO 57
Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.

Texto de Fernando Pessoa
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 58
Lembro-me de quando era criança e via,
Como hoje não posso ver, A manhã raiar sobre a cidade.
Ela não raiava para mim
Mas para a vida.
Porque então eu, ( não sendo consciente )
Eu era a vida.
E via a manhã e tinha alegria.
Hoje vejo a manhã e tenho alegria.
E fico triste.
Eu vejo como via, mas por trás dos olhos, vejo-me vendo.
E só comisso, se obscurece o sol,
O verde das árvores é velho,
E as flores murcham antes de aparecidas.

Texto de Fernando Pessoa
Extraído do show Imitação da Vida - 1997


TEXTO 59
Eu agi sempre,
Eu agi sempre para dentro.
Eu nunca toquei na vida.
Nunca soube como se amava...
Apenas soube como se sonhava amar.
Se eu gostava de usar anéis de damas nos meus dedos,
É que às vezes eu queria julgar que as minhas mãos eram de princesa.
Gostava de ver a minha face refletida,
Porque podia sonhar que era a face de outra criatura.

Texto de Fernando Pessoa
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 60
No tempo em que festejavam
Os dias dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era
Uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha,
Estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente pra entre a família,
E de não Ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim Ter esperanças,
Já não sabia Ter esperanças.

Texto Aniversário de Álvaro de Campos
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 61
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim
Não o fiz, o dominó que eu
Vesti estava errado
conheceram-me logo
Por quem eu não era e não desmenti,
perdi-me, quando quis tirar
A máscara estava colada a carne

Texto Tabacaria de Álvaro de Campos
Extraído do show Imitação da Vida - 1997


TEXTO 62
Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Tem de ser ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso cartas de amor ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor é que são ridículas.

Texto "Todas as Cartas de Amor são" de Álvaro de Campos
Extraído do show Imitação da Vida - 1997


TEXTO 63
Quanto a mim...
O amor passou.
Peço que não faça como a gente vulgar,
Que não me volte a cara quando passe por si,
Nem tenha de mim uma recordação
Em que entre o rancor.
Fiquemos, um perante o outro,
Como dois conhecidos desde a infância,
Que se amaram um pouco quando meninos,
E, embora na vida adulta
Sigam outras afeições, conservam sempre,
Num escaninho da alma,
A memória profunda do seu amor antigo e inútil

Texto "Cartas de Amor" de Álvaro de Campos
Extraído do show Imitação da Vida - 1997


TEXTO 64
Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar, de sonhar sempre,
Pois sendo mais do que uma espectadora de mim mesma,
Eu tenho que Ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas,
Invento palco, cenário para viver o meu sonho entre luzes brandas
E músicas invisíveis.

Texto de Fernando Pessoa
Extraído do show Imitação da Vida - 1997


TEXTO 65

Não sei sentir, não sei ser humano,
Não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens,
Meus irmãos na terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cotar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
De sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas
E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

Trecho do texto "Passagem das Horas" de Álvaro de Campos
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 66
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Trecho do texto "Para ser grande" de Ricardo Reis
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 67
Eu quero um colo, um berço
Um braço quente
Em torno ao meu pescoço
E uma voz que cante baixo
E pareça querer me fazer chorar
Eu quero um calor no inverno
Um extravio morno da minha consciência
E depois em som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas

Texto de Fernando Pessoa
Extraído do show Imitação da Vida - 1997

TEXTO 68
Era o mar e parecia ser o mar.
Era o mar.
Dois mil anos esperei por aquele
Que febre alguma ou olhar
Moedas, escárnios, anseios, desejos,
Amores confessos puderam tocar.
À minha frente ei-lo intacto
Suspenso sobre meus lábios
Aureolado suplicando
O nome do seu nome.

Era quimera e parecia ser o amor.
Era quimera.
Graça flutuante figurava estar sentado.
A cabeça era magra coberta de cachos
Junquilho de onde o sol jorrava.
As asas mantidas fechadas
Tocavam o chã longas emplumadas
O corpo intangível.
Seus olhos castanhoverdecinzadourados
Escarlates me olhavam
Como se fossem desde sempre
A límpida palavra.
Era belo e assim se apresentava.

Era o caule e parecia ser a flor.
Era o caule.
Veste-se de blue e um fio transparente
Costura-se asas e costas.
Os pés traz escondidos calçando botas.
Não voa não cumpre seu nome.
Quer ser apenas azul e belo como é a paixão.

Era a Beleza e parecia ser a Beleza.
Era a Beleza.

Filho pródigo abandonou a casa,
De seus vestígios de musa
De seus lampejos de Anjo
Brotavam todas as lágrimas.
A dor incrustada na curva da porta
Esperou por muito tempo a volta.
Depois no rubi deste coração
Escreveu seu nome.

Poema Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo de Neide Archanjo
Extraído do disco coleção Poesia Falada Vol.6 - 1998

TEXTO 69
Vou danado pra Catende,
Vou danado pra Catende,
Vou danado pra Catende,
Com vontade de chegar

Cana caiana,
Cana roxa,
Cana fita,
Cada qual é mais bonita
Todas boas de chupar.

Poema O trem de Alagoas de Ascenso Ferreira
Extraído do disco A Força que nunca seca - 1999


TEXTO 70
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente que chega a fingir
Que é dor, a dor que deveras sente

Poema Autopsicografia de Fernando Pessoa
Extraído do disco Diamante Verdadeiro - 1999


TEXTO 71
Nessa vida em que sou meu sono
Eu não sou meu dono
Quem sou é que me ignoro
E vive através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que outrora tive numa só vida
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo
Mas minha cor vem do meu alto céu
E só me encontro quando de mim fujo

Poema sem título de Fernando Pessoa
Extraído do disco Diamante Verdadeiro - 1999


TEXTO 72
Vou danado pra Catende,
Vou danado pra Catende,
Vou danado pra Catende,
Com vontade de chegar

Cana caiana,
Cana roxa,
Cana fita,
Cada qual é mais bonita
Todas boas de chupar.

Poema O trem de Alagoas de Ascenso Ferreira
Extraído do disco Diamante Verdadeiro - 1999


TEXTO 73
Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas, a terra treme do lado esquerdo
trazes a assombração, as conjunções fatais
e as vozes negras da noite
Senhora do meu espanto e do meu medo
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
há uma lua do avesso quando chegas
há um poema escrito em página nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
quando tu chegas começa a música Senhora dos cabelos de alga
onde se escondem as divindades
Trazes o mar, a chuva, as procelas
Batem as sílabas da noite, batem os sons,
os signos, os sinais
e és tu a voz que dita.
Trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
Tudo em ti é partida
Tudo em ti é distância
Tudo em ti é retorno
Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
teu chicote, tua ternura sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
quando tu chegas dançam as divindades
E tudo é uma alquimia
Tudo em ti é milagre Senhora da energia.

Poema Senhora das Tempestades de Manuel Alegre
Extraído do disco Diamante Verdadeiro - 1999


TEXTO 74
Era um sonho dantesco...tombadilho
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, levantando às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
chora e dança ali

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, oxossa do monte,
... Adeus, palmeira da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
se é loucura, se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
de tuas vagas, Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Poema Navio Negreiro de Castro Alves
Extraído do disco Diamante Verdadeiro - 1999